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Herói ocidental

por Miguel Reis, em 03.09.14

Há duas semanas fui jantar a casa de um herói invisível. Chamemos-lhe John Doe para o manter tranquilo com a partilha dos pormenores desta história. Ele não é rico, não tem um emprego de sonho, não completou a faculdade, está pleno de sonhos por realizar, mas é das pessoas mais interessantes que já conheci na vida e, orgulhosamente, um dos meus poucos e bons amigos. O John trabalhou 3 anos sem férias a fazer todos os turnos possíveis e imaginários para conseguir juntar dinheiro para ir de mochila às costas para a Ásia durante um mês para conhecer melhor o mundo e, arrisco-me a dizer, conhecer-se melhor a si próprio. Sem mordomias, mas com uma intensa vontade de abrir perspetivas, lá foi ele, sozinho, literalmente de mochila às costas.

 

Quando visitou Taiwan, John deparou-se com um interessante negócio de chá chamado Chatime. Algo similar ao Starbucks, mas orientado para o mercado do chá.

 

 

 

Podem ver o produto a ser confecionado no vídeo.

 

 

Parou na loja, experimentou o produto, adorou o seu sabor e quis saber mais. Chegado a casa do couchsurfer que o acolheu, antes de ir dormir decidiu enviar um email à empresa de chás a referir que gostaria de saber se era possível ter um franchising da empresa em Portugal. O que se passou depois...é quase utópico para a nossa realidade.

 

John levantou-se cedo no dia seguinte e a empresa – cotada em bolsa - já lhe tinha respondido ao email e pretendiam conhecê-lo numa reunião. That easy. Estavam dispostos a conhecer um completo estranho que estava de visita ao seu país e lhes tinha enviado um simples email. Mas isto não é nada, comparando com o que se segue. Como ele já tinha planos para aquele dia, perguntou educadamente se havia possibilidade da reunião ficar para o dia seguinte. A empresa respondeu prontamente que não haveria qualquer problema e ofereceu-se de imediato para o ir buscar a um local da sua conveniência, para que não estivesse preocupado nas deslocações, tendo em conta que não conhecia bem a cidade.

 

No dia seguinte, no ponto de encontro acordado - uma estação de comboios - à hora marcada, chegava a boleia para o português. A boleia era um luxuoso automóvel preto sedan, impecavelmente polido, conduzido por um motorista trajado a rigor. Quando estacionou, duas assistentes saíram do carro, olharam em redor e lentamente dirigiram-se a ele e, confirmada a identidade, acompanharam-no ao carro para o levarem à empresa. Chegado à sede, foi apresentado ao diretor geral da empresa, que fez questão de lhe apresentar todas as pessoas que lá trabalham.

 

Fizeram-lhe um tour completo pela empresa, explicando detalhadamente as funções de cada departamento. Depois desse tour, sentaram-se à mesa e explicaram-lhe o plano de negócios e discutiram os contornos do processo, sem que nada fosse esquecido. Acabada a reunião, levaram-no a almoçar a um restaurante de luxo, onde lhe pagaram todas as despesas. Comeram, falaram, riram, trocam histórias curiosas que as diferenças culturais potenciam e despediram-se, sem que antes disso lhe entregassem toda a documentação necessária para o ajudar a tomar a sua decisão final. Certamente não serei o único a achar este processo algo verdadeiramente admirável.

 

O John acabou por não dar seguimento ao interesse do franchise porque cada chá é vendido em Londres, a única cidade europeia onde a empresa está atualmente, em copos grandes de papel, a cerca de 4 libras. Como em Portugal supostamente o produto deveria manter-se dentro da mesma gama de preços, e ele não estava confortável com isso, abandonou a ideia. Ficou portanto "apenas" a incrível experiência para contar.

 

Enquanto o John me contava este episódio, levantámo-nos da mesa para ir à varanda. Aí, ele começou a explicar-me quem morava no seu bairro e rapidamente começou a lamentar-se da limpeza da rua. "Esta rua está suja, mas eu não posso fazer mais. O mês passado, como ninguém da Junta ouviu as minhas queixas para reforçar a limpeza aqui, peguei na vassoura e varri a rua de uma ponta à outra. Deixei a rua toda limpa dos dois lados. Os meus vizinhos viam aquilo e desviavam o olhar quando olhava para eles, mas eu não consigo chegar a casa e ver a minha rua toda suja com papéis e lixo." (...)

 

Quando voltámos para a mesa, ele concluia que tinha ficado encantado com a forma como se faz negócio em Taiwan e rematou para a realidade nacional: "Vê bem a diferença, Miguel. Cá em Portugal, enviei um mail para uma empresa para saber pormenores do franchise deles e estão há 3 semanas sem me dar resposta. Já lhes enviei mais emails depois disso, mas não tive resposta. Não lhes devo interessar. Não percebo a falta de interesse."

 

Quando cheguei a casa nessa noite, enquanto fazia um balanço das várias horas de conversa, cheguei à conclusão que tenho um amigo que é um herói invisível. Invisível para a Junta de Freguesia, invisível para os seus vizinhos e invisível para as empresas nacionais. Em suma, é invisível para o seu país a diversos níveis.

 

Platão referiu um dia algo extraordinariamente clarividente - "o que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê".

 

Fica-me contudo uma dúvida. Não sei se o John é alguém à frente no seu tempo, ou se está, simplesmente, à frente do seu país...

 

 

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publicado às 09:34


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