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AgLocal e o futuro dos produtores nacionais

por Miguel Reis, em 27.03.14

 

 

 

A semana passada elaborei um post sobre a inspiradora lista das 50 Most Innovative Companies 2014, elaborada pela Fast Company. Como prometido, chegou agora o momento de analisar uma das empresas que mais me surpreendeu, a AgLocal.

 

Para melhor compreender o mercado em que a AgLocal atua, pedi ajuda especializada. Mas já lá vamos.

 

A AgLocal surge no #43 da lista e é uma empresa norte-americana focada em eliminar os intermediários entre o produtor de animais e o consumidor final. Fundada por Naithan Jones, a AgLocal obteve financiamento de um dos investidores a operar atualmente no mercado, Ben Horowitz, entre outras ventures capital que decidiram apoiar a empresa.

 

O seu modelo de negócio ajuda o produtor pois permitir-lhe escoar o seu produto sem perder uma significativa margem para os hipermercados, assim como beneficia o consumidor, pois pode comprar diretamente ao produtor, a um preço menor, sem intermediários.

 

Para além do preço mais baixo, pode saber concretamente de onde vem a carne, qual o produtor, de que região, qual foi a alimentação do animal e até pedir a carne cortada de determinada forma e vê-la ser entregue em casa.

 

O funcionamento é simples. Através do site ou é possível registarmo-nos (na teoria, pois é apenas válido para a zona de NY) como um dos três elementos:

 

- Consumidor Final

 

- Chef de Cozinha / Restaurante

 

- Produtor 

 

 

Todas as partes beneficiam - o consumidor tem carne melhor a um preço menor, os restaurantes compram mais barato, com mais qualidade e controlo e o produtor consegue escoar o produto com uma margem de lucro superior, não apenas a consumidores finais, como também a restaurantes .

 

Através de uma plataforma online disponível para PC, smartphones e tablets, é possível realizar todo o processo de registo, pesquisa, transação e obter o respetivo invoice online.

 

Naturalmente a AgLocal faz uma seleção dos produtores a marcar presença na aplicação para beneficiar a qualidade final do processo (e fica com uma pequena taxa das transações realizadas, claro...).

 

 

 

 

Para perceber melhor este processo e de que forma é que modelo de negócio podia ajudar aos produtores e consumidores nacionais, desafiei o Gonçalo Mariano , produtor de animais e veterinário a conhecer a AgLocal, para posteriormente dar umas luzes sobre a sua importância no atual contexto do mercado, pois era a pessoa certa para fornecer um olhar de quem conhece e trabalha no setor.

 

O texto que se segue é da sua autoria e merece uma leitura atenta, pois vem reforçar a pertinência deste modelo de negócio para os produtores de animais e consumidores nacionais. É extenso, mas só assim é possível ter a big picture. Aqui fica.

 

 

Com a entrada de Portugal na União Europeia e com a abertura das fronteiras o comércio de carne passou-se a realizar de portas abertas. Hoje facilmente chega ao consumidor final em Portugal uma bifana proveniente da Dinamarca que foi comercializada por um operador francês e revendida pela grande distribuição portuguesa.  Ou mesmo um leitão para assar produzido na Holanda, comercializado por um espanhol e vendido na Bairrada como se fosse um leitão à moda antiga.

 

O consumidor final não sabe deste trânsito animal e anda enganado pensando que come carne nacional quando na realidade não o faz. Digo-o com toda a certeza e como um orgulhoso produtor nacional de leitões para a Mealhada. Nos bovinos, como aparece no rótulo a origem e a sala de desmancha, o consumidor só não vê se não quiser!

 

Dinamarca, Holanda, Espanha e Alemanha são os principais produtores de carne de suíno na Europa. A proximidade com a Rússia é um fator determinante porque a EU produz em excesso determinadas carnes, como por exemplo a de suíno, ficando dependente da exportação para países emergentes como a Rússia ou a China. No entanto, existem outros países emergentes, como o Brasil, que tentam entrar ferozmente no mercado russo e chinês.

 

O preço da carne funciona como uma bolsa e as unidades de comercialização é preço/kg carcaça. O preço, tal como em outros mercados varia consoante a procura e a oferta onde existe um fator importante para o produtor de animais que se denomina custos de produção.

 

Se não existir um equilíbrio no preço de venda em relação ao custo de produção o produtor não consegue manter a sua atividade que é bastante importante para o setor primário. Este é a única pessoa que tem a capacidade extraordinária de transformar proteína vegetal em proteína animal. Sem eles há fome.

 

Com a diminuição desta atividades primária, o país torna-se deficitário na produção de carne tornando-se cada vez mais dependente do exterior tanto a nível de preços como de quantidades.

 

É importante reter dois pontos fundamentais numa exploração de animais: custo de produção e preço de venda.

 

Custo de produção:

 

Se o produtor tem a capacidade de transformar proteína vegetal (ração) em proteína animal e tendo em conta que os custos de alimentação representam 70% do custo total e os produtores são dependentes do preço das matérias primas (milho, trigo, cevada, girassol, soja, entre outros produtos), como Portugal é dependente do exterior em mais de 50% dos cereais um produtor nem sempre consegue baixar os custos de alimentação.

 

Se existir uma comercialização direta entre o produtor e o consumidor final consegue-se passar por cima da grande distribuição. Assim, um produtor passa a ter maior independência financeira e aposta em sectores primários, como a produção de cereais, para ser autossustentável. Esta é grande vantagem da aplicação quanto aos custos de produção: desenvolvimento do sector agrícola para atingir a autossustentabilidade.

 

Preço de venda:

 

O produtor vende os seus animais em vida a um matadouro e o preço a pagar é consoante a bolsa da carne. O matadouro por sua vez vende as carcaças à grande distribuição ou vende a retalho pelos talhos.

Se olharmos para as margens de negócio tanto o matadouro mas principalmente a grande distribuição, estes têm praticamente as suas margens garantidas e não abdicam delas. Sendo assim, quando o preço das matérias primas sobe e os hipermercados mantêm os preços e as suas margens acaba por ser sempre o produtor a pagar a fatura.

 

Acredito piamente que uma comercialização de proximidade, como faz a AgLocal, entre o produtor e o consumidor final seja a sobrevivência dos produtores.

 

Nem tudo se resume a margens de negócio pois esta aplicação tem como arma um mercado de proximidade, de qualidade, aumento do emprego, estimulação do consumo nacional, potenciando assim o desenvolvimento do setor agrícola.

 

Por fim resta-me dizer que em Portugal produzimos carne de excelente qualidade, por isso, exija português.

 

Consuma nacional.

 

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publicado às 09:00



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